Ricardo Thomé

 

Leon Tolstoi já ensinava: fale de sua aldeia, e você estará falando para o mundo todo!!

Acho que, consciente ou inconscientemente, sempre falei da minha “aldeia” em meus escritos. Na verdade, acho muito difícil, quase impossível, você não se colocar, de uma forma ou de outra, com mais ou menos evidência, naquilo que você faz. A gente é o que a  gente ousa… ou o que deixa de ousar. Então, eu estou ali, em cada linha que escrevo, em cada livro que publico.

 

Tirando a poesia – reino do id, do inconsciente, do onírico, e, portanto, mais difícil de se rotular ou de se estabelecer parâmetros – meus fantasmas estão todos presentes em minha literatura. Mais até, provavelmente, na poesia, mas, como já disse, nesta seara é tão difícil localizar isso ou aquilo, é tudo tão aberto a múltiplas interpretações, a poesia, por si mesma, é tão ambígua e ambivalente, tão naturalmente polivalente, que é o lugar ideal pra se achar pêlo em casca de ovo!…

 

Mas sou um apaixonado por poesia – na minha opinião, depois da música, a expressão mais sublime da Arte. Tomo, nas mãos, meu exemplar do
“Arranjo para cinco vozes”, meu livro de poemas premiado pela Fundação Biblioteca Nacional. Estou inteiro lá, ainda que camuflado pelas metáforas e
técnicas poéticas. Estou lá quando digo que “O que se escreve de verdade quer ser lido”, ou, quando em outro momento, afirmo, cabralinamente, que “Não
milpesada, a palavra pesa”, ou, ainda, no conselho que dou a mim mesmo: “sê nu e transparente em tuas vestes”.

 

Mais fácil, para o leitor, me perceber na minha prosa. E ali, nela, na prosa, meus fantasmas mal conseguem se disfarçar: a incapacidade de me adaptar ao chamado status quo, um gauchismo existencial que, de tão absoluto, parece me preceder, o conflito familiar, abusca eterna por uma resposta, a  homossexualidade, a questão da Aids, a busca desesperada por um outro (que possa, minimamente, preencher o que me soa como um irremediável vazio), a percepção da importância do amor, da amizade e da solidariedade na vida de todos nós, as entrelinhas daquilo que se escreve, daquilo que se lê…

 

Aquele que escreve, escreve pra ser lido, ouvido… E, num mergulho ainda mais fundo nesta idéia, escreve  para ser amado… Escrever é pedir,
generosamente: “me amem”. Cada obra minha é um pedido de amor. Obrigado aos que souberam escutá-lo!

 

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